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Bárbara Cabral

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BIXA TRAVESTY: AFETO COMO PALAVRA DE ORDEM

O 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro aconteceu em setembro de 2018, um mês antes da eleição presidencial. Mesmo em um contexto político conturbado – no qual direitos sociais estavam sendo ameaçados – o Festival, por meio dos filmes escolhidos, propôs discutir temáticas que interseccionam a esfera pública e a esfera privada. Entre os longas escolhidos, Bixa Travesty, de Kiko Goifman e Cláudia Priscilla, destacou-se não só pela temática, mas pela ousadia narrativa que combina bem com a personagem que retrata: uma cantora trans, latino-americana e negra.

Nunca havia visto ou ouvido falar de Linn da Quebrada. Às vezes, fico meio por fora dos booms musicais. No entanto, creio que não haveria jeito melhor de conhecer Linn: sorridente e orgulhosa no palco do Cine Brasília. Cabelo com corte chanel, esguia, ao lado da companheira de performance, Jup do Bairro, Linn apresentou o filme falando de afeto como força motriz para a mudança. A diretora, Cláudia Priscilla reforçou “Esse filme não é um filme sobre a Linn da Quebrada, mas sim um filme com a Linn da Quebrada, afinal, ela participou efetivamente da construção do roteiro”. A plateia gritava “maravilhosa”, e eu já arrepiada pelo simples discurso que Linn professava: “Precisamos de afeto. Esse filme é sobre a disputa por um novo imaginário social, sobre a disputa pelos nossos corpos”.

A narrativa é construída a partir de highlights (expressão LGBTQ para nomear aquilo que realça ou que é brilho). Existe um fio narrativo que funciona como atmosfera para o filme: a luva que Ney Matogrosso usava e foi dada de presente por Jup para Linn foi perdida. Jup fica chateada com a amiga, enquanto Linn sente que perdeu algo importante. Neste prólogo, temos a sensação que a história do filme será a busca por essa luva – mas ele vai muito além disso.

As performances de Linn no palco cantando suas músicas autorais e um programa de rádio que ela apresenta com Jup – reflexões complexas, mas nem por isso sem bom humor – permeiam todo o longa. Tive a impressão que Linn da Quebrada soube explicar toda a bibliografia foucaultiana – passando pela História da Sexualidade (1976) e pelo conceito de biopoder. Entretanto, ela não utiliza termos acadêmicos, mas palavras bem conhecidas ao público: corpo, afeto, pau, feminino, controle e poder.

Na sauna, as amigas Jup e Linn falam sobre corpos trans, femininos, negros e gordos, ou seja, corpos desviantes. Em meio ao vapor, ao suor e às conversas extremamente existencialistas, destaco a fala de Jup sobre o efeito da comicidade. Para a artista, a comédia é uma forma de acessar o outro com temas tabu sem causar estranhamento ou constrangimento, mas ao mesmo tempo havendo uma certa quebra da credibilidade, destoando o engraçado daquilo que pode ser bonito. Neste ponto, o longa corta para as duas cantando a música “A lenda”, em que o mote: “Eu tô bonita?” “Tá engraçada” prevalece. Ri e chorei nessa parte do filme, ao lembrar de um episódio pessoal, quando um ex-namorado me disse que eu era muito engraçadinha e que ele gostava de mulheres sérias – retomando ao imaginário feminino do bela, recatada e do lar. Mesmo não me identificando como uma mulher trans ou negra, vi-me em vários aspectos deste longa, afinal, é um documentário sobre afeto e corpo, aspectos universais a qualquer indivíduo social.

E, falando em corpos, é impossível deixar de mencionar a naturalidade com que Bixa Travesty os retrata. Paradoxalmente, esses corpos que são ditos como antinaturais pelo discurso hegemônico são mostrados como paisagem. Em planos-detalhes aparecem pintos, mãos, cabelos, bocas. E o corpo como paisagem é uma potência afetiva que transforma as formas de poder como nos relacionamos com o meio e o outro.

Em termos em linguagem, os cortes entre várias cenas, que lembram esquetes teatrais, dão os aspectos de highlights ao longa. Entre essas cenas, vemos um episódio íntimo entre Linn e Liniker, na casa de Linn, em que as duas cozinham junto à mãe da cantora e protagonista do filme – realçando acontecimentos comuns de “seres” ditos como “estranhos”.

No meio da narrativa, uma série de fotos projetadas em forma de slides, em que Linn se encontra em um hospital e careca. A princípio, acredito ser uma performance. Somos transportados para o quarto de Linn, onde observamos que ela e uma amiga estão, na realidade, vendo fotos antigas em um notebook, do período em que a cantora se tratava de um câncer no testículo. Neste ponto, percebe-se o quanto Linn e Bixa Travesty são subversivos. Quem teria a ousadia de tratar de um câncer de uma maneira tão performática? Não chorei – porque a forma como se mostrou este momento na vida de Linn não foi nenhum um pouco melodramática: no meio do filme, como se fosse mais uma performance da artista.

Enfim, a força motriz de Bixa Travesty é mesmo o afeto: o afeto da música, dos corpos e principalmente do discurso. Linn usa e abusa da música, da dança e dos figurinos para comunicar. O que ela reforça é um diálogo que deve ser construído a qualquer custo e mais: um senso de comunidade no qual a individualidade e a coletividade se encontram para transbordar em novas formas de ser.

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